Informações sobre o disco

                                      A lenda e o culto do imorrível Di Melo

         Como cantaram os Doces Bárbaros, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Gal Costa e Maria Bethânia, “mistério sempre há de pintar por aí”. É que não há explicações plausíveis para justificar que um artista extrapole os próprios índices de popularidade para se tornar uma lenda urbana. Nem que um determinado disco, em geral obscuro, mosca branca, converta-se em cult, disputado a peso de ouro nos sebos e sites enturmados. O pernambucano de Recife Roberto de Melo Santos (22/4/1949) protagonizou os dois fenômenos – e ainda em vida, na contramão da maioria dos mitos entronizados no panteão pop. Seu LP “Di Melo”, gravado em 1975 – um ano antes do desembarque de “Esotérico”, de Gilberto Gil, a propósito do imponderável - saiu ainda na crista da onda SoulBrasil, que projetou Tim Maia, Genival Cassiano, Gerson King Combo, Toni Tornado, Hyldon e Paulo Diniz. Mas teve pouca repercussão - e vendas – na época. Porém, sua pegada peculiar, flambada na psicodelia, faria o disco ser redescoberto nos anos 90, no exterior. E em lojas do Japão e da Holanda, o original chegou a ser cotado, na faixa dos 700 euros.

        Lubrificou a lenda, o fato de Di Melo ter sofrido um grave acidente de moto no começo dos 90, que deu origem aos boatos de sua morte. Isso ocorreu antes que uma das canções de seu disco cult (“A vida em seus métodos diz calma”) fosse incluída na coletânea “Blue Brazil 2”, do prestigiado selo de jazz, Blue Note, em 1997, ao lado de artistas como Elza Soares, Edu Lobo, e Leny Andrade, e motivasse o revalorização de sua obra por DJs ingleses. Esse renascer de falsas cinzas resultou no documentário de Alan Oliveira e Rubens Pássaro, “Di Melo – o imorrível” (que intitularia seu disco de 2016, com participações de BNegão, Larissa Luz e Olmir Stockler). Fez parte da ressurreição e da mitificação de seu disco de estreia uma breve aparição da capa do referido vinil no vertiginoso clipe da canção “Don’t stop the party”, do grupo americano de hip hop/pop “The Black Eyed Peas.

        A origem pessoal do artista promoveu uma mescla curiosa de influencias que resultaria num estilo multifacetado. Filho do taxista e violonista Artur Napoleão de Melo Carneiro Filho e de Dativa dos Santos, cantora, ele logo se interessou pelo violão. O padrinho português dono de uma das maiores lojas de ferragem de Recife, o queria trabalhando na empresa, mas ele preferiu o instrumento, e aos 13 anos fez sua primeira composição. Interessou-se também pelas artes de entalhar madeira e pintar quadros, que conciliou na adolescência com a ocupação de guardar e lavar carros. Já frequentava a boemia apresentando-se nos bares Aroeira e Bumba meu Bar. Foi Vanderlei, organista de Roberto Carlos, quem primeiro notou seu talento e o encorajou a mudar-se para São Paulo, de onde voltou logo por causa do frio, atuando na peça teatral “O arame farpado no continente perdido”. O segundo a despertar para as habilidades musicais do então apelidado Bobby d’ Melo foi Jorge Benjor. Ele o apresentou a seu empresário Roberto Colossi, que o engajou numa série de shows.

             Di Melo foi parar em Tóquio, onde apresentou-se no bar Saci Pererê, antes de viajar também para França e Alemanha. Quem deu o impulso definitivo para a decolagem do artista foi a cantora Alaíde Costa que o viu no mitológico bar Jogral paulistano. E o levou ao então diretor artístico da EMI Odeon, Moacir Machado, que o contratou após ouvir algumas de suas músicas. Ficou tão impressionado com o novato que montou um timaço instrumental para seu disco que viraria cult. Foram convocados dois maestros ligados à bossa nova, José Briamonte (arranjos) e Geraldo Vespar (orquestração e regência) para emoldurar a voz e violão do artista, que contou ainda com os estelares Hermeto Pascoal (teclados, percussão e flautas), Heraldo do Monte (violão e violas), ex-integrantes do Quarteto Novo, e mais Bolão (sax), Claudio Bertrame (baixo), Ubirajara (sintetizador), Luis Melo (teclado), Capitão (trompete) e Rafael Romero (bandoneon).

            Sim porque há no cardápio incrementado do vinil nada menos que um voluntarioso tango, “Sementes” (“vai flor que se mata/ à espera do amanhã/ vai, desembaraça teu sorriso, alma irmã”) e outra faixa perfumada pelo instrumento portenho, a indômita Conformópolis” ( “o escritório, o chefe, o cartão para marcar/ o magro sanduíche engolido num bar/ ela então desperta, ela tenta gritar”), de Waldir Wanderlei da Fonseca. Mais uma faixa de orquestração densa, invadida por um trumpetinho de repetição à la “Penny Lane”, dos Beatles, é a autoral “Má lida” (Ah! julgo não ser enxerido/ nem intrometido/ tampouco ousado/ é que estou saturado/ de tanta má lida”). “Alma gêmea” (“eu triste a caminhar/ só minha sombra me acompanha”) desliza como balada álacre, numa linha próxima a Fagner. Pavimentada por órgão flutua “João” (traz os olhos molhados/ tem silêncio por dentro/mas diz tanta coisa”), de Maria Cristina Barrionuevo.

          Um violão benjoriano costura a introdução da sagaz “Pernalonga” (“Vê se corre pra pegar o tempo/ que o tempo não para”) com sopros gingantes. Poeta audacioso, ele arrisca um palpite surreal: “Se o mundo acabasse em mel”, funkão pavimentado por tumbadoras, num groove meio bogaloo, que também conduz outro clássico do roteiro, “Minha estrela’ (“vi tua imagem refletida em meu espelho”). Num pique rítmico acelerado “Aceito tudo” (Vithal/Vidal França) atropela metáforas (“estou pregado nesse mundo/ como se fosse um carrapato/ sou a morte num buraco”). Joias mais preciosas da coroa, “Kilariô” (“raiou o doía/ eu vi chover em minha horta/ (...) quanto eu sofria/ ao ver a natureza morta”) e a essencial “A vida em seus métodos diz calma” (“no corre corre/ no desespero/ nego até se mata”) atestam a originalidade e a pujança deste artista que nunca abriu mão de sua estética independente.(Tárik de Souza)


Tracklist

Lado A

01 – Kilario

02 – A Vida Em Seus Métodos Diz Calma

03 – Aceito Tudo

04 – Conformopolis

05 – Ma-lida

06 - Sementes


Lado B

01 – Pernalonga

02 – Minha Estrela

03 – Se O Mundo Acabasse Em Mel

04 – Alma Gêmea

05 – João

06 – Indecisão


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