“Surfando karmas & DNA” reafirma a potência dos Engenheiros do Hawaii.
Formada em Porto Alegre por três gaúchos que estudavam arquitetura, liderados pelo guitarrista Humberto Gessinger, a banda Engenheiros do Hawaii escalou o disco “pau-de-sebo” “Rock Grande do Sul, com “Sopa de letrinhas”. Virou o primeiro clipe exibido na MTV americana) e os catapultou para o álbum de estreia, de título sarcástico, “Longe demais das capitais”, de 1986. Ao longo da prolífica carreira, com diversas formações, Gessinger & cia primaram pelas sacadas provocativas e filosóficas, em títulos de discos e músicas. Como “A revolta dos dândis”, (inspirado em livro do escritor Albert Camus), “infinita Highway” (“A dúvida é o preço da pureza”, citação do existencialista Jean-Paul Sartre), “Ouça o que eu digo, não ouça ninguém”, “O papa é pop” (antecipando o protagonismo do atual Francisco), “O exército de um homem só”. E mais: “Terra de gigantes” (do trecho que viralizou antes das redes sociais, “a juventude é uma banda/ numa propaganda de refrigerantes”), “Toda forma de poder” (“é uma forma de morrer por nada”).
Até desembocar neste turbinado e enigmático “Surfando Karmas & DNA” (“Quantas vezes eu estive cara a cara com a pior metade?”), de 2002. O disco condensa, várias épocas e estéticas da banda rotativa, que teve mais de 15 integrantes, entre eles o guitarrista Augusto Licks, o comprador de instrumentos da banda, como a guitarra Steiberger branca, da capa do álbum “O papa é pop”, o mais vendido do grupo com 350 mil cópias. A banda trocou de estilos e instrumentos, da fase folk rock, à imersão nos teclados, sequenciadores e sintetizadores, e um flerte firme com o rock progressivo, enquanto escalava em popularidade. De estrela secundária no Festival Alternativa Nativa, no Maracanãzinho, em 1988, a apoteose de ginásios lotados.
No vigoroso “Surfando karmas e DNA”, Gessinger (guitarras, violões, teclados, voz e concepção) Paulinho Galvão (guitarras e violões), Bernardo Fonseca (baixo) e Glaucio Ayala (bateria e percussão) injetam pressão máxima, em petardos como “Esportes radicais” (“180, 360, 540 graus, girando, esquentando/ só pra ver até quando o motor aguenta o caos”), “Sei não”, “Arame farpado” (“seria absurdo se não fosse lei”) e “Datas e nomes”. Também há decibéis com densidade lenta, como “Nem mais um dia” (“vou deletar meu corpo da tua tatuagem”) “Ritos de passagem” e a sátira publicitária de “3ª.do plural”: “eles querem te vender/ eles querem te comprar”.
A faixa “e-Storia”, instaura diálogo saudosista com o co-autor o ex-Engenheiros, Carlos Maltz, e conecta a banda com seu passado, sob os eflúvios gauchescos da virtuose gaita ponto de Renato Borgheti. Em “Nunca mais” (“a vida não é um jogo/ de palavras cruzadas/ onde tudo se encaixa”), Gessinger adapta o megahit “Lullaby”, do folk americano Shawn Mullins. E as guitarras musculosas de “Pra ficar legal” encerram o enredo: “agora não...muito tarde pra entender/eu tô fechado pra balanço”. (Tárik de Souza)